quinta-feira, 19 de janeiro de 2006

Universidades federais criam cursos para professores indígenas no Norte e Nordeste


Os povos indígenas Mura, que vivem na região do rio Madeira, no Amazonas, e Potiguara, que habitam o Vale do Mamanguape, no litoral da Paraíba, são os alvos principais de dois projetos de licenciatura intercultural que estão sendo construídos pelas universidades federais do Amazonas (Ufam) e de Campina Grande (UFCG), na Paraíba.
A montagem dos cursos é feita numa tripla parceria que envolve as universidades federais, os povos indígenas e o Ministério da Educação. Os recursos para o custeio das licenciaturas e a aquisição de equipamentos são do Programa de Formação Superior e Licenciaturas Indígenas (Prolind), do MEC. Para a montagem dos cursos, que será feita em 2006, o ministério repassou R$ 76.462,00 à UFCG e R$ 76.284,00 à Ufam em 8 de novembro de 2005. O Prolind prevê um prazo de 12 meses para a definição das licenciaturas e o início dos cursos no primeiro semestre de 2007.
Ufam – Na Federal do Amazonas, a coordenadora do projeto, Rosa Helena Dias da Silva, montou uma agenda com os professores e com as lideranças indígenas que prevê uma série de ações em 2006: serão 12 seminários nas aldeias Mura do município de Autazes para ouvir os professores e os líderes sobre o que eles pensam e como querem o curso; uma pesquisa histórica nos museus Nacional e do Índio, no Rio de Janeiro, e no Museu Goeldi, em Belém (PA), sobre as origens e a trajetória do povo Mura no Amazonas; estudos lingüísticos com o professor da Universidade de Campinas (Unicamp) Wilmar D’Angelis para tentar o resgate da língua dos Mura, que foi perdida pelo processo integracionista nos séculos 19 e 20, e do Nhengatu (língua geral indígena) que também não é falada pelos Mura; censo escolar nas aldeias que será feito pelos professores indígenas;  estudos dos modelos de cursos de licenciatura e visitas a três universidades: a experiência da Federal de Roraima com o curso Insikiran de formação de professores, da Estadualdo Amazonas que está montando um curso para o povo Ticuna do Alto Solimões e da Estadual de Mato Grosso que formou uma turma em 2005 e iniciou a segunda neste ano.
Rosa Helena informa que a primeira turma do curso da Ufam deverá ter 60 vagas, das quais 44 para os professores que já têm o magistério e 16 para indígenas que têm formação de nível médio em outras áreas do conhecimento. Depois de atender os Mura, explica a coordenadora, a Ufam deverá usar a experiência para oferecer cursos de formação intercultural para outros povos do estado.
Campina Grande – O desafio da Universidade Federal de Campina Grande será construir o primeiro curso de formação de professores indígenas da parte norte da região Nordeste. Na Paraíba vivem cerca de dez mil índios Potiguara, único povo da língua Tupi que permaneceu no litoral após as primeiras décadas do descobrimento, em 1500. O projeto de curso coordenado pela UFCG compreende uma série de ações em 2006, entre as quais, destacam-se: discussões nas aldeias Potiguara do Vale do Mamanguape, na Baía da Traição, sobre a diversidade e a educação plural; seminários com especialistas sobre o programa nacional de educação indígena; intercâmbio com outras universidades que têm experiência na oferta de licenciatura intercultural e com o Museu Nacional no Rio de Janeiro; oficinas sobre diagnóstico, legislação e de preparação do projeto político-pedagógico do curso.
De acordo com o coordenador do projeto, Márcio Caniello, a UFCG estuda três alternativas para a oferta do curso: na sede da universidade em tempo integral, na sede nas férias escolares das aldeias ou criando uma unidade avançada da universidade no Vale do Mamanguape. Este último modelo, diz Caniello, pode ser adotado a partir da experiência da UFCG que já tem o projeto Universidade Camponesa no Vale do Cariri criado em 2003. A primeira turma deverá ter entre 30 e 40 vagas e as seguintes um número maior. Depois de definir o modelo de curso, informa o coordenador, o objetivo é ampliar a licenciatura para os demais povos indígenas do estado e também para os de Pernambuco e Rio Grande do Norte.
Repórter: Ionice Lorenzoni

Programas são unidos para impedir violência sexual


M., 5 anos, foi passar a tarde na casa do padrinho e foi acariciada por ele. J., 15, foi vítima de violência sexual por parte do pai, que estava embriagado. S. e F., irmãs de 9 e 11, foram seviciadas pelo tio, que ameaçou: se contassem para alguém, apanhariam. C. e C., de 5 e 6, ficavam freqüentemente com a faxineira, que os alisava até machucar.
Histórias como estas reforçam no Ministério da Educação a necessidade de ampliar o programa Escola que Protege, que dá apoio a crianças e jovens em situação de risco e, em 2006, funcionará integrado a outras ações governamentais. Dentre elas, o programa Escola Aberta, que abre as escolas nos finais de semana com atividades que unem a comunidade e permitem a participação da família no ambiente escolar.
Segundo Leandro Fialho, coordenador de Ações Educacionais Complementares do MEC, o Escola que Protege será desenvolvido neste ano em cerca de mil escolas públicas da educação básica onde o Escola Aberta está implantado. “O projeto prevê a capacitação dos professores em contato diário com as crianças. Também prevê a criação de uma rede de proteção às vítimas de violência e, ainda, a orientação aos pais e familiares sobre as formas de tratar a questão”, explica.
Em 2005, o Escola que Protege foi desenvolvido no formato piloto em três municípios – Belém, Fortaleza e Recife. Neste ano, será expandido para 85 municípios em 16 estados: Acre, Amazonas, Amapá, Rondônia, Roraima, Pará, Maranhão, Ceará, Paraíba, Bahia, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul.
Estarão envolvidos no programa 6.200 profissionais de educação, que vão capacitar 900 operadores da Rede de Proteção Integral. O investimento previsto pelo MEC é de R$ 700 mil: R$ 500 mil para a capacitação de professores e R$ 200 mil para o trabalho dos coordenadores regionais. Com o novo formato do programa, a temática da violência contra crianças e adolescentes passa a ser tratada também nas atividades desenvolvidas nos finais de semana. Pais e alunos vão participar, por exemplo, de oficinas com orientações sobre prevenção, tratamento e até mesmo punição para agressões físicas, psicológicas ou sexuais contra meninos e meninas.
“A criança tem de ser respeitada nos seus direitos, é uma questão de cidadania. Por trás de muitas reprovações e da evasão de alunos, existe um histórico de trabalho infantil, violência e exploração sexual”, explica Leandro Fialho. De acordo com ele, o Escola que Protege já conseguiu bons resultados. Em 85% dos casos atendidos, a violência foi interrompida.
Os casos citados foram retiradas do sítio Bombeiros Emergência.
Repórter: Sonia Jacinto